Criação

pentagrama

Cantigas de roda

Eu nasci em Itaibó (município de Jequié), vila de uma rua só, ‘interior do interior’ do Sudoeste da Bahia, em 27 de julho de 1968. Na ludicidade da tenra idade, me foram marcantes as cantigas de roda no terreiro da casa de Didico e Dona Roxa (meus queridos avós maternos) e, pouco depois, no terreiro da casa de Tia Lia, em Apuarema, outra pequena e próxima vila onde fui morar quando tinha cerca de 4 anos de idade. Brincar de roda era uma oportunidade de divertimento, cantoria, auto-descoberta, paquera:

Solista: – Dois passarinhos
Coro: Dona Miné
Solista: – Caiu no laço [sic]
Coro: Dona Miné
Solista: – Der’um beijinho
Coro: Dona Miné
Solista: – Der’um abraço
Coro: Dona Miné
Solista: – Der’outro beijo
Coro: Dona Miné
Solista: – Der’outro abraço
Coro: Dona Miné
Solista: – Escolha outro(a)
Coro: Dona Miné
Solista: – Para ser seu par
Coro: Dona Miné

Éramos entre 10 e 20 crianças de mão dadas, formando uma roda e girando em sentido horário, duas crianças no centro da roda encenando o que narram os versos citados. O solista era um adulto (ou uma criança mais crescida) que tinha que “cuidar” das crianças, para evitar os “excessos”. Cantigas como essa nos iniciava nos mistérios da sexualidade e do erotismo de um modo maravilhoso. Mas haviam várias outras brincadeiras, como as contações de estórias das minhas tias, os cantos de trabalho vindos dos empregados do sítio de meu pai e dos meus tios, etc.

Farras e Festas de Cosme e Damião

O bem humorado Miguel José, o meu caríssimo pai, um cantador amador de sambas e serestas; Dona Glória, a minha maravilhosa mãe, era mais assídua nas ladainhas e novenas católicas, mas fazia dupla com Seu Miguel quando a farra era em casa; os meus quatro irmãos e a minha irmã caçula vivíamos todos no embalo desse casal. Não foram poucas as vezes em que os eles me acordaram de madrugada com um batuque a toque de colher e prato de esmalte, como aquele dos batuqueiros e batuqueiras do Recôncavo baiano, a exemplo de Edite do Prato. Desde cedo, eu acompanhei meu pai nas suas serestas pelas casas de amigos e bares. A minha afinidade com a música era ainda mais aguçada através dos LPs, vitrolas, rádios, gravadores, instrumentos musicais de brinquedo e outros objetos sonoros com os quais o meu pai me colocava em contato. A minha memória esbanja momentos musicais, mas nenhum é tão forte quanto as festas de Cosme e Damião, concentradas no mês de setembro, nas proximidades do dia 27, quando as religiões afro-brasileiras celebram os orixás Ibejis, assimilados com os santos católicos Cosme e Damião, como são chamados os curadores Acta e Passio, da antiga Egeia (atual  Ayas, na Ásia Menor). Os meus pais, em prol de uma graça que desejavam alcançar, oferecia uma grande festa aos milagreiros gêmeos, com farta comida e bebida distribuídas para centenas de pessoas: parentes, amigos, vizinhos, conhecidos e tantos outros moradores das redondezas. A festa tinha música durante todo o dia: cantávamos batendo palmas, enquanto 7 crianças (de até 7 anos de idade, cada) comiam, sentadas em círculo numa esteira de palha. Depois disso, era servido o caruru (como denominamos uma das comidas que compunha o prato e a festa como um todo) para os muitos participantes – fila grande. Passada a refeição, cantávamos a ladainha católica. Ao final, cantávamos com o povo de terreiro que fazia o sambão em frente ao oratório, momento da celebração em que as crianças eram proibidas de presenciar. Mas sempre dávamos um jeito de furar o cerco e, de um cantinho do quarto, presenciávamos a gira e o batuque dos ogãs. Participei de um sem número de carurus de Cosme e Damião, o que me deixou sonoramente encharcado de cantigas até os dias atuais, mesmo depois de muitos anos sem participar dessas festas. Com o tempo, a Igreja Católica e as demais religiões cristãs recrudesceram o repúdio à festa, devido à miscigenação com as religiões afro-brasileiras — sem contar as sucessivas “novidades” da sociedade de consumo —, de modo que tal manifestação vem diminuindo acentuadamente. Mas acredito que a festa de Cosme e Damião nunca vai desaparecer, apenas está passando por um momento de opressão ostensiva.

Rock, MPB, Paraíba, “cultura”

Mais tarde, por volta do ano de 1985, na adolescência, eu tive outros marcos musicais e intelectuais. O meu irmão mais velho, Walmick Oliveira, tornou-se amante de rock e de MPB, o que me lançou na rica sonoridade urbana da década de 1970 (Led Zeppelin, J. Hendrix, J. Joplin, Clara Nunes, Chico Buarque, Gilberto Gil…). Outro irmão, Abrahão, cultuava as ciências sociais e a literatura — uma fartura que me foi cara. Outra sorte: conheci Caruaru, através do meu tio Zé Brejeiro (na verdade, casado com tia Dete, irmã da minha mãe), quando ele me levava para uma viagem de férias a Campina Grande (Paraíba), onde viviam os seus familiares. Eu já sabia que Caruaru, cidade do Agreste pernambucano, era um lugar musical, mas não tinha a ideia de que uma feira reunia tantos músicos: trios de forró, bandas de pife, emboladores, duplas de violeiros e outros. Foi tão arrebatador, que eu não me contive e gritei: “Tio, eu quero morar em Pernambuco”. Zé Brejeiro, a quem os meus pais confiaram a minha primeira grande viagem desapeado deles, não gostou do meu ímpeto e repreendeu: “Deixe de besteira, home, cale a sua boca, nosso destino é Campina!”. Fiquei quieto sim, mas só da boca pra fora. E não deu outra: anos depois, cursei a graduação em música (violão “erudito”) na capital paraibana, João Pessoa. Após o curso, eu comecei a conversar com os meus amigos sobre o meu desejo de estudar os “ritmos brasileiros” e, numa dessas conversas, a amiga Beatriz me falou que a Professora Maria Ignez Aiala (letras) estava recrutando alunos e graduados para uma pesquisa sobre os cocos, manifestação cultural largamente ocorrente no Nordeste. Maria Ignez queria um músico na sua equipe. Foi através dessa grande figura que eu conheci a expressão acadêmica “cultura popular”. Arguta, crítica e ácida, ela me deu a conhecer os trabalhos de intelectuais como Mário de Andrade e me fez perceber que eu nasci e cresci imerso na auralidade de algumas práticas culturais e que nunca tinha passado pela minha cabeça a necessidade de conceitua-las como “cultura”. Afinal, até então para mim, “cultura” era somente o que aprendíamos nas escolas.

Pernambuco, Etnomusicologia, Batuque Book

Durante os meus últimos anos de residência em João Pessoa, eu fundei a banda de rock Os Caba (nome inspirado na expressão “os cabras de Lampião”), referenciada no movimento manguebeat, o qual estava em seu auge e era liderado pela banda recifense Chico Science & Nação Zumbi. Mas, em 1994, tendo sido aprovado num concurso público, eu passei trabalhar no Conservatório Pernambucano de Música e o meu sonho de morar em Pernambuco finalmente foi se concretizando. Aportei no Recife com o nome da banda Os Caba e arregimentei músicos para levar o projeto adiante. Pouco tempo depois de começar a trabalhar no Conservatório Pernambucano, eu conheci Carlos Sandroni, que me apresentou uma área de pesquisa com um nome quase estranho: Etnomusicologia; só não me soava totalmente exótico porque, um ano antes, eu ouvira aquele palavrão da boca de Manuel Veiga em João Pessoa. Aí pronto! Estava traçado o início de uma trajetória que levei em frente e trouxe até os dias atuais: vivenciar e registrar as práticas sonoras incautamente chamadas de “cultura popular”. Sob a orientação de Sandroni, eu cursei a Especialização em Etnomusicologia (UFPE). Logo em seguida, conheci Tarcísio Resende — um dos membros da banda Os Caba e do grupo que fundei logo depois, o Chá de Zabumba — e começamos a conceber o Batuque Book, o que pode ser lido mais acuradamente em outra parte deste site, através do link homônimo do referido projeto.
Em seguida, eu cursei uma segunda graduação (Pedagogia) e, depois, o Mestrado em Etnomusicologia (UFPB), também sob orientação de Sandroni. Tendo lançado quatro CDs do grupo Chá de Zabumba, eu sentia a falta de uma base mais sólida para escrever e optei por dedicar mais trabalho aos estudos acadêmicos do que à performance musical. Em 2010, eu iniciei o Doutorado em Música — Etnografia das Práticas Musicais (Unirio) — sob a orientação da Professora Elizabeth Travassos, uma profissional sensacional, que faleceu no meio do meu curso, o que me levou a procurar outro orientador. Então, Felipe Trotta foi um grande achado: um profissional arguto, bem humorado e que escreve como eu gostaria de escrever. Foi com ele que eu consegui produzir uma tese que questiona alguns constructos sobre a bipolarização “forró pé de serra versus forró eletrônico”. Saí do Doutorado com uma sensação de que tive um ganho na escrita: Missão cumprida!

Enquanto eu cursava o Doutorado, fui desenvolvendo paulatinamente um trabalho solo. Com um texto sobre o forró, ganhei o “Prêmio Funarte Centenário de Luiz Gonzaga”, através do qual produzi e lancei o Batuque Book Forró. Na ocasião, tive a felicidade de me aproximar de Dominguinhos, experienciar um pouco da sua sapiência e com ele gravar o DVD desse projeto em andamento. Durante a realização desse trabalho, desfrutei também da companhia de outros grandes artistas: Herbert Lucena, Maciel Melo, Bozó, Gennaro…. Foi uma fase rica da minha vida e, apesar de ter feito poucos shows, eu aprofundei a minha carreira artística e a minha intelectualidade.

Em face do que acabo de narrar e do que descrevo na sessão sobre o Batuque Book, vocês podem perceber que eu pratico a Etnomusicologia como um processo de autoconhecimento e de construção de amizade. Eu cruzo o meu traço subjetivo (brincador de roda, filho de um cantador de samba e de celebradores da festa de Cosme e Damião) com os procedimentos da antropologia (pesquisa etnográfica) e de outras ciências sociais. Assim, eu venho vivenciando várias tradições musicais — como coco, maracatu, caboclinho, forró, frevo — que me ajudaram a compreender e respeitar as práticas religiosas afro-brasileiras (umbanda e candomblé) e a jurema sagrada (ameríndia), que são ligadas a tais músicas.