Batuque Book

O que é Batuque Book e como nasceu

pentagrama
bb_foto1

Tarcísio Resende (Foto: Marcelo Bulhões/Thercles Silva)

bb_foto2

Climério de Oliveira (Foto: Marcelo Soares)

Quando eu, Climério de Oliveira, conheci Tarcísio Resende, em pouco tempo percebi que nós tínhamos alguns pensamentos em comum, motivo pelo qual eu convidei esse percussionista para tocar no grupo Os Caba e, mais adiante, no Chá de Zabumba. Além do nosso grupo, dividíamos também uma ligação de infância com a música, com os maracatus e com outras tradições ocorrentes em Pernambuco. Descobrimos também que já tínhamos, cada um ao seu modo, anotações de padrões rítmicos e versos de toadas de maracatu e de coco que compartilhávamos com as nossas turmas de alunos. E foi dessa maneira que percebemos um sonho comum: aprender mais, organizar o nosso aprendizado e repassar — para os nossos colegas, alunos e outros interessados — os conhecimentos sobre as práticas sonoras tradicionais. Queríamos fazer algo que fosse como uma ponte entre as pessoas e as tradições musicais, mas que fosse acessível a diversos públicos do Brasil e de outros países. No entanto, inicialmente, nós pensamos em produzir um songbook de maracatu e foi com essa proposta que aprovamos um projeto no Funcultura (edital público regido por uma lei de incentivo do Governo Estado de Pernambuco). Para nossa surpresa, antes que fizéssemos qualquer divulgação voluntária, os jornais recifenses começaram a nos procurar, a nos entrevistar e a publicar matérias de página inteira sobre a novidade: “Pernambuco terá songbook de Maracatu” (Diário de Pernambuco, 3/10/2004). Mas logo percebemos que o termo songbook se reportava a um livro com melodias e letras cifradas de canções populares de sucesso midiático. Nós queríamos mergulhar nos detalhes onde a melodia cifrada não penetrava e fazer algo que aproximasse, pelo menos minimamente, os leitores de uma experiência musical junto aos maracatus. Para tanto, começamos a pensar em reunir num mesmo trabalho mais de um suporte (livro impresso e CD-ROM/DVD) e várias “linguagens”, por assim dizer, como: texto, música gravada, fotografia, audiovisual, partituras descritivas, esboços, etc. Além disso, queríamos informações de primeira mão, pois eu já tinha sido iniciado na pesquisa de campo etnográfico pela linguista Maria Ignez Aiala (UFPB) e pelo etnomusicólogo Carlos Sandroni (UFPE).

Nessa perspectiva, buscamos compreender os significados da tradição abordada, seus processos coletivos, comunitários, os aspectos musicais e socioculturais dos fazedores, enfim, buscamos compreender a tradição do ponto de vista das pessoas de dentro, os insiders. Passamos por uma vivência com os grupos tradicionais, procurando respeitar os saberes dos mestres e lideranças das comunidades.

Como o que queríamos construir era um trabalho multifacetado, estávamos insatisfeitos com o rótulo “songbook” que, por sinal, além de nos soar inadequado para o nosso trabalho, não podíamos utiliza-lo como rótulo, uma vez que o termo anglófono fora patenteado aqui no Brasil por Almir Chediak, que construiu uma série extraordinária de songbooks dos canto-autores da chamada MPB. Então, passamos a viver um momento alegre — por estarmos prestes a lançar o trabalho — e ao mesmo tempo melancólico, por não termos um nome que fizesse jus ao produto multimídia. Lembrei-me de uma frase que li no Ensaio sobre a cegueira de José Saramago em 1995: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”. Ah… isso tinha que ser resolvido! E foi. Num encontro que tive com Carlos Sandroni, que estava nos ajudando a revisar as partituras, eu manifestei a minha melancolia e ele sugeriu brincando: “Se não é um songbook, talvez seja um batuque book”. Eureka! Obrigado, Sandroni, por ter nos ajudado com esse parto.

Com o passar do tempo, fomos entendendo que o nosso trabalho não se resume a produtos físicos, como livros, CD-ROMs e DVDs, mas abrangem outras ações: pesquisa, cursos, oficinas, workshops, palestras musicadas, vivências, performances participativas, compartilhamentos de experiências musicais e de informações, organização de eventos e outros projetos similares. A série vem tomando corpo, já lançamos alguns volumes: Vol. 1 – Maracatu: baque virado e baque solto; (livro + CD áudio & ROM) ; Vol. 2 – Cabocolinho: (livro + áudio & ROM) ; Vol. 3 – Forró: a codificação de Luiz Gonzaga (livro +DVD) ; DVD 1. Maracatu Nação: Leão Coroado, Porto Rico e Encanto da Alegria (o DVD apresenta um material diferente daquele publicado no Batuque Book Vol. 1).

Atualmente, eu e Tarcísio não estamos produzindo juntos, as demandas individuais nos impõe muita dedicação. Mas temos a intenção de seguir produzindo separados ou juntos, de acordo com as circunstâncias. Eu estou empenhado na pesquisa que vai gerar o Batuque Book Frevo, um enorme desafio, dada a complexidade e o acervo dessa tradição. O projeto pretende gerar vários produtos físicos e ações culturais.

Estamos na estrada!

Palavras-chave:

Música tradicional do Brasil; música brasileira popular; tradições populares; maracatu; frevo; caboclinho / Tradictional music of Brazil; Brazilian popular music.